Em 2025, o entusiasmo com a inteligência artificial levou as ações de tecnologia a ganhos que, em retrospecto, pareceram mais momentum do que fundamentação. O setor entregou crescimento de 26% nos lucros — forte por qualquer padrão histórico — mas os valuations se estenderam muito além do que esse crescimento justificava, com alguns nomes ligados à IA negociando a 40x–80x lucros futuros.
Em 2026, a entrega de resultados subjacente acelerou: o crescimento de LPA do setor de tecnologia é projetado em 43%, de acordo com o consenso da FactSet, tornando-o o setor de maior crescimento do S&P 500 por ampla margem. Mas a reação do mercado tem sido mais moderada do que em 2025, e investidores profissionais descrevem sua abordagem com expressões como "seletividade por ativo" em vez da compra ampla que caracterizou a primeira onda.
A divergência entre fundamentos acelerados e sentimento mais cauteloso merece exame cuidadoso.
O que o número de 43% realmente representa
A projeção de crescimento de 43% nos lucros para o setor de tecnologia abrange uma gama ampla de negócios subjacentes. Não é distribuída de forma uniforme.
No topo da faixa de crescimento, as empresas de semicondutores que fornecem hardware para treinamento e inferência de IA — com a Nvidia como caso paradigmático — enfrentam demanda que consistentemente supera a oferta. Os clientes de data center (hyperscalers de nuvem: Microsoft, Google, Amazon, Meta) continuam investindo agressivamente em infraestrutura de IA. Os compromissos de capital expenditure das quatro maiores hyperscalers para 2026 atingiram níveis recordes, com um gasto coletivo superior a US$ 200 bilhões em infraestrutura de data center.
Na faixa mais baixa de crescimento dentro do setor de tech estão empresas adjacentes à IA, mas cujos modelos de negócio não foram transformados por ela: fornecedores de software legado, empresas de serviços de TI, distribuidores de hardware. Muitas delas estão crescendo lucros, mas em taxas muito abaixo do headline setorial.
O número de 43% é uma média ponderada que obscurece essa dispersão. Um ETF passivo de tecnologia captura tudo; uma abordagem ativa seletiva tenta concentrar a exposição nos componentes de maior crescimento.
As projeções de tamanho do mercado de IA
O mercado de IA (definido amplamente como software de IA, hardware habilitado por IA e serviços de IA) é projetado para atingir US$ 3 trilhões em mercado endereçável total até 2033, segundo estimativas de diversas firmas de pesquisa de mercado (Bloomberg Intelligence, IDC, McKinsey Global Institute). Essa projeção tem ressalvas padrão: é uma previsão de uma tecnologia cujo caminho de comercialização é genuinamente incerto.
O que é menos especulativo é o capital expenditure do ano atual: os mais de US$ 200 bilhões sendo gastos pelas hyperscalers em data centers em 2026 não são projeção — estão divulgados em resultados trimestrais. Esse gasto se traduz em receitas para Nvidia, AMD, TSMC e dezenas de empresas de equipamentos para semicondutores.
O crescimento agregado do LPA do S&P 500 para 2026 é projetado em 12,6%. O crescimento da tecnologia, a 43%, é mais de três vezes maior do que o do mercado amplo em termos de lucros. A questão é se esse crescimento já está precificado — se os preços das ações dos beneficiários de IA já refletem os 43% mais os próximos vários anos de crescimento contínuo.
O que a "segunda onda" realmente significa
A "primeira onda" do investimento em IA (aproximadamente 2023–2025) foi caracterizada pela compra relativamente indiscriminada de qualquer coisa com exposição à IA. Empresas que adicionaram "IA" às descrições de produtos viram suas ações reagir; fornecedores de infraestrutura pura (Nvidia, acima de todos) tornaram-se empresas de trilhões de dólares em anos, não décadas.
A "segunda onda" — que caracteriza 2026 — envolve um conjunto diferente de perguntas:
Quem realmente monetiza a IA? Os chips e a infraestrutura de nuvem estão sendo construídos. Mas para a maioria das empresas de software empresarial, recursos de IA foram adicionados aos produtos sem aumentar de forma relevante a receita por cliente. A segunda onda pergunta: quais empresas estão traduzindo a implantação de IA em crescimento mensurável de receita e expansão de margem?
Energia como co-beneficiária da IA: Data centers exigem enormes quantidades de eletricidade. O boom de infraestrutura de IA criou um aumento na demanda de energia que não é amplamente reconhecido na cobertura popular. Em 2026, o setor de energia emergiu como beneficiário inesperado da IA — utilities e geradores de energia que fornecem para campi de data center estão fechando contratos de longo prazo.
A exposição do Brasil à IA
As empresas brasileiras não são participantes primários no boom de infraestrutura de IA — o ecossistema de fabricação de semicondutores e hyperscalers de nuvem está concentrado nos EUA, Taiwan e Coreia do Sul. No entanto, empresas brasileiras estão se tornando adotantes de IA, e algumas estão desenvolvendo produtos nativos de IA para o mercado doméstico.
No setor de fintech, a subscrição de crédito baseada em IA, detecção de fraudes e automação de atendimento ao cliente estão amplamente implantadas. O Nubank investiu significativamente em infraestrutura de machine learning. Para investidores brasileiros que buscam exposição à IA, a rota primária continua sendo o IVVB11 (o ETF do S&P 500 listado na B3) ou BDRs de empresas de tecnologia americanas.
Riscos que o headline de 43% não mostra
Concentração: O crescimento de lucros da IA está fortemente concentrado em um pequeno número de empresas. Se a Nvidia decepcionar — se a demanda arrefecer ou um concorrente credível surgir —, o número de lucros do setor de tecnologia cai drasticamente.
Risco regulatório: O AI Act da UE está em fase de aplicação. A postura regulatória dos EUA em relação à IA está evoluindo. Disputas sobre licenciamento de conteúdo (processos de direitos autorais sobre dados de treinamento) tramitam nos tribunais.
Risco geopolítico em torno de semicondutores: Os controles de exportação americanos sobre chips avançados para a China têm sido um fator significativo no mercado de semicondutores de IA. Mudanças de política em qualquer direção afetariam materialmente a dinâmica de oferta e demanda do mercado de hardware de IA.
A saturação das "pás e picaretas": Quando todos os bancos de investimento publicam relatórios recomendando infraestrutura de IA, os trades óbvios tendem a estar lotados. A reação mais moderada do mercado em 2026 versus 2025 reflete em parte que os beneficiários de IA mais óbvios já estavam amplamente detidos.
Uma leitura honesta dos dados
O crescimento de 43% nos lucros é real, e está sendo gerado por gastos reais de capital em infraestrutura real. O mercado de IA não é especulação sem atividade econômica subjacente — construção de data centers, vendas de chips, receita de nuvem e renovações de contratos de software são mensuráveis em tempo real.
O que é incerto é a duração e a distribuição dos retornos. Por quantos anos o crescimento de lucros de tecnologia acima do mercado persiste? Quais beneficiários de segunda ordem (energia, imóveis para data centers, equipamentos de refrigeração, redes) terão ganhos duráveis? Quais empresas adjacentes à IA verão impacto de receita que ainda não aparece nos lucros atuais?
Essas são as perguntas que distinguem a segunda onda do investimento em IA da primeira.
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