O Boletim Focus de 25 de abril de 2026 trouxe dois movimentos simultâneos que raramente aparecem juntos na mesma divulgação: a expectativa de inflação para o ano subiu novamente — agora para 4,80% — e, desta vez, o mercado não esperou o Copom agir para revisar a Selic. A projeção mediana para a taxa básica de juros no final de 2026 saltou de 12,50% para 13,00%.
Essa combinação merece atenção. Em edições anteriores do Focus, o mercado mantinha a Selic estável nas projeções mesmo com o IPCA subindo — um sinal de que havia confiança de que as condições cambiais e energéticas corrigiriam o quadro sozinhas. Dessa vez, o consenso passou a precificar explicitamente que o Banco Central vai precisar apertar o torniquete.
A sexta revisão consecutiva
O número 4,80% não surgiu do nada. Esta foi a sexta revisão consecutiva para cima da projeção de IPCA para 2026. Antes de detalhar o que muda com esse número, vale documentar o histórico recente dessas revisões:
| Data do Focus | Projeção IPCA 2026 |
|---|---|
| Março 2026 (início) | ~4,20% |
| 13 de abril | 4,71% |
| 20 de abril | ~4,75% |
| 25 de abril | 4,80% |
Seis semanas de movimento unidirecional para cima indicam algo mais do que ruído de curto prazo. Os analistas que contribuem para o Focus — bancos, gestoras, consultorias independentes — estão sistematicamente corrigindo projeções que se mostraram otimistas demais no início do ano. Quando o mercado revisa na mesma direção por seis semanas seguidas, o sinal é que a tendência subjacente ainda não reverteu.
O limite crítico aqui é 4,50%. A meta oficial de inflação para 2026 é 3,0% com banda de ±1,5 ponto percentual, o que define um teto de 4,50%. Em 13 de abril, o consenso ultrapassou esse teto pela primeira vez. Agora, 12 dias depois, está 30 pontos-base acima dele.
Por que o mercado revisou a Selic para 13%
Até a semana passada, as projeções para a Selic no final de 2026 se mantinham em 12,50% — o que implicava que o mercado ainda esperava cortes adicionais de 50 pontos-base além do nível atual, mesmo com a inflação acima do teto da meta. Essa postura refletia uma aposta de que fatores externos — petróleo mais baixo após o cessar-fogo EUA-Irã, real valorizado — atuariam como desinflação orgânica, dispensando uma resposta mais dura da política monetária.
A revisão para 13,00% no Focus de 25 de abril representa o abandono dessa aposta pelo consenso do mercado. Há pelo menos três razões estruturais para isso:
O câmbio não segurou. A valorização do real para abaixo de R$ 5,00 em meados de abril foi temporária. Com a projeção de câmbio para o final do ano caindo para R$ 5,30 neste Focus — queda em relação aos R$ 5,37 da edição anterior, mas ainda num nível que implica depreciação frente ao dólar — o argumento de que o câmbio vai ancorar as expectativas inflacionárias ficou mais fraco.
A inflação de serviços é resistente. Commodities e energia têm dinâmica externa. A inflação de serviços — saúde, educação, aluguel, serviços pessoais — responde principalmente à dinâmica doméstica: mercado de trabalho, nível de atividade econômica, inércia contratual. Esse componente tem se mantido elevado independentemente do que acontece com o petróleo ou o câmbio.
A credibilidade do ciclo de cortes está em jogo. O Copom iniciou um ciclo de afrouxamento monetário com a Selic mais alta da região. Continuar cortando com IPCA projetado a 4,80% — 30 pontos-base acima do teto da meta — obriga o comitê a apresentar uma justificativa convincente de que as expectativas vão convergir para baixo sem ajuda adicional da política monetária. O mercado está dizendo que não está convencido.
O que 13% na Selic de final de 2026 implica
Projetar a Selic em 13,00% no final de 2026 é uma afirmação sobre o ritmo esperado do ciclo. Para entender o que isso significa, é útil partir de onde estamos hoje.
A Selic atual está em 14,75%. Se o mercado projeta 13,00% para dezembro, isso equivale a esperar 175 pontos-base de corte ao longo dos próximos oito meses — ou seja, aproximadamente 25 pontos-base por reunião do Copom, assumindo que cada reunião resulte em corte. Uma aceleração no ritmo de cortes para 50 pontos-base por reunião seria incompatível com essa projeção: levaria a Selic abaixo de 13,00% até setembro.
A implicação prática é que o mercado está antecipando um ciclo de cortes mais lento e mais cauteloso do que estava sendo precificado há apenas duas semanas. A próxima reunião do Copom, marcada para os dias 6 e 7 de maio de 2026, será o primeiro teste dessa hipótese.
O que o Copom precisa comunicar em maio
A reunião de maio chega em um momento de pressão tripla sobre o comitê: inflação acima do teto, expectativas desancoradas por seis semanas consecutivas, e mercado que acabou de revisar a Selic terminal para cima. A decisão em si — quanto cortar, se cortar — é menos importante do que a narrativa que acompanha.
Há três possibilidades para o comunicado:
Corte de 25 pontos-base com tom cauteloso. Seria lido pelo mercado como reconhecimento implícito de que o ciclo vai desacelerar. Compatível com a projeção de Selic a 13,00% no final do ano. Não seria surpresa.
Corte de 50 pontos-base com linguagem defensiva. O comitê mantém o ritmo, mas deixa claro que está monitorando de perto e pode pisar no freio. O risco é que o mercado interprete isso como incoerência: por que cortar 50 pontos-base com inflação 30 pontos-base acima do teto?
Pausa no ciclo. Improvável, mas não descartável se os dados de inflação entre hoje e a reunião surpreenderem para cima. Seria lido como sinal hawkish forte, potencialmente derrubando preços de renda fixa de prazo mais longo de forma brusca.
A leitura do Focus aponta para o primeiro cenário como baseline do consenso. Mas baselines podem mudar rápido no Brasil quando há seis semanas de revisões acumuladas puxando na mesma direção.
Como isso afeta diferentes classes de ativos
Renda fixa pré-fixada. Com a projeção de Selic subindo de 12,50% para 13,00%, os títulos pré-fixados de prazo médio e longo sofreram marcação a mercado negativa. Quem carregava Tesouro Prefixado com vencimento em 2028 ou 2029 assumindo que os cortes continuariam no ritmo anterior está agora com PU menor nos portfólios. A exposição pré-fixada ficou mais arriscada neste ciclo.
Tesouro IPCA+. A dinâmica aqui é mais favorável. Com IPCA projetado a 4,80% — e com risco de revisão para cima ainda presente — a parte indexada dos títulos IPCA+ trabalha a favor do investidor. O problema é a parte da taxa real: se as taxas de juros nominais sobem por causa de inflação mais alta, o prêmio real exigido também tende a subir, comprimindo os preços dos títulos mais longos. No horizonte curto, IPCA+ protege melhor que pré-fixado.
Fundos imobiliários e ações de setores sensíveis a juros. FIIs de papel com carteiras indexadas ao IPCA ficam relativamente protegidos, mas FIIs de tijolo e ações de construtoras sofrem com a perspectiva de juros mais altos por mais tempo. O mesmo vale para utilities e setores de concessão, cujos valuations dependem de taxas de desconto mais baixas.
Câmbio. A projeção de dólar a R$ 5,30 para o final do ano — queda em relação à projeção anterior de R$ 5,37 — sugere que o mercado vê alguma sustentação para o real. Juros nominais mais altos por mais tempo podem atrair fluxos de carry trade. Mas isso depende do contexto global: se o apetite por risco emergente deteriorar, R$ 5,30 vira R$ 5,50 rapidamente.
A armadilha do diagnóstico atrasado
Há algo importante a nomear sobre o padrão de seis revisões consecutivas: ele indica que as projeções do início do ano foram construídas sobre premissas que o mercado foi tendo que abandonar gradualmente. Isso não é crítica aos analistas — previsão macroeconômica é genuinamente difícil — mas é um lembrete sobre o custo de construir posições com base em projeções que ainda não incorporaram informação disponível.
Quando o Focus estava projetando IPCA a 4,20% em março, o câmbio já tinha se desvalorizado, os preços de energia já tinham subido, e a inflação de serviços já dava sinais de resistência. O mercado revisou com defasagem. Quem posicionou portfólio apostando em cortes rápidos da Selic baseado nos números de março agora enfrenta marcação a mercado negativa.
O ponto não é que o Focus esteja "errado" — é que projeções são estimativas que devem ser tratadas como tal. Seis revisões para cima dizem que o ponto de partida era otimista demais. Não dizem quantas mais revisões virão.
O que acompanhar nas próximas semanas
Antes da reunião do Copom de maio, três dados importam mais do que qualquer outro:
IPCA-15 de abril (ou maio). O índice de prévia da inflação vai indicar se o momentum de alta continuou após o encerramento do período de coleta do Focus. Uma leitura acima de 0,50% mensual seria sinal de alerta.
Câmbio. A diferença entre R$ 5,10 e R$ 5,40 no dia da reunião do Copom é substantiva. Real mais fraco aumenta a pressão inflacionária via importações; real mais forte dá margem para o comitê manter um tom mais neutro.
Ata do Copom de abril. Publicada antes da reunião de maio, a ata da reunião de 28–29 de abril vai revelar como o comitê está enquadrando o problema da inflação acima do teto. Se a ata mencionar explicitamente o risco de desancoragem das expectativas como preocupação prioritária, o mercado vai interpretar isso como preparação para uma postura mais hawkish em maio.
A narrativa do Focus de 25 de abril é clara: o mercado não está mais disposto a esperar que condições externas resolvam o problema inflacionário sozinhas. Selic a 13% no final do ano é o novo consenso, e ele implica que a trajetória de cortes vai ser mais lenta do que parecia duas semanas atrás.
Na Royal Binary, acompanhamos os dados macro semanais — incluindo cada edição do Boletim Focus — como parte do processo de monitoramento de condições de mercado. Não porque macro determina cada trade, mas porque a trajetória da Selic afeta liquidez, volatilidade e correlações entre ativos. Se quiser entender como operamos nesse contexto, conheça a plataforma.


