A temporada de resultados do 1º trimestre de 2026 começou com a Romi (ROMI3) — a fabricante de máquinas e equipamentos foi uma das primeiras empresas listadas na B3 a divulgar os resultados do primeiro trimestre. Nas semanas seguintes, empresas maiores como Gerdau, Vale e então os grandes bancos divulgarão seus balanços. Cada um desses relatórios inclui demonstrações financeiras: uma demonstração de resultados, uma demonstração de fluxo de caixa e o balanço patrimonial.
Para muitos investidores — especialmente os que entraram no mercado durante o boom do investimento digital de 2020–2022 — ler um balanço patrimonial ainda é uma lacuna desconfortável. Este guia aborda essa lacuna diretamente, usando empresas da temporada real de resultados do 1T26 do Brasil como pontos de referência.
O que é um balanço patrimonial e o que ele faz
O balanço patrimonial é uma fotografia: mostra o que a empresa possui (ativos), o que ela deve (passivos) e o que pertence aos acionistas depois de liquidadas essas obrigações (patrimônio líquido). É tirado em uma data específica — o último dia do trimestre ou do ano fiscal.
A identidade fundamental da contabilidade é:
Ativo = Passivo + Patrimônio Líquido
Essa equação sempre se mantém. Se uma empresa toma emprestado R$ 1 bilhão (aumento do passivo), simultaneamente tem R$ 1 bilhão a mais em caixa ou ativos (aumento do ativo). Se uma empresa gera R$ 500 milhões de lucro líquido e os retém (em vez de distribuir como dividendos), os lucros acumulados (patrimônio líquido) sobem em R$ 500 milhões, e os ativos sobem pelo mesmo valor.
Entender que essa equação não pode ser violada ajuda a verificar se as demonstrações estão completas e a identificar onde as decisões da gestão aparecem.
O lado dos ativos: circulante e não circulante
Os ativos são divididos em circulantes (aqueles com expectativa de conversão em caixa dentro de 12 meses) e não circulantes (ativos de longo prazo).
Ativos circulantes tipicamente incluem:
- Caixa e equivalentes de caixa
- Aplicações financeiras de curto prazo
- Contas a receber — dinheiro devido por clientes
- Estoques — para empresas de manufatura e varejo
- Despesas pagas antecipadamente
Ativos não circulantes incluem:
- Imobilizado — fábricas, máquinas, edificações
- Intangíveis — patentes, valor de marca, ágio de aquisições (goodwill)
- Investimentos de longo prazo e participações em subsidiárias
- Impostos diferidos
Para uma empresa de bens de capital como a Romi — que fabrica máquinas-ferramenta —, o imobilizado (planta física e maquinário) é um ativo grande e crítico. Para a Vale — mineradora —, os direitos minerários e a infraestrutura de minas são ativos não circulantes massivos.
O lado do passivo: dívidas de curto e longo prazo
Passivos circulantes incluem obrigações com vencimento dentro de 12 meses:
- Contas a pagar (fornecedores) — dinheiro devido a fornecedores
- Dívida de curto prazo e parcela corrente da dívida de longo prazo
- Impostos a pagar
- Receita diferida
Passivos não circulantes incluem:
- Dívida de longo prazo — debêntures, empréstimos bancários com vencimento além de 12 meses
- Passivos fiscais diferidos
- Provisões para contingências (processos judiciais, passivos ambientais)
Para empresas de mineração como Vale, as provisões para contingências ambientais e judiciais podem ser substanciais — tanto a Vale quanto a Gerdau carregam provisões significativas relacionadas a eventos ambientais e litígios.
Patrimônio líquido: o direito residual
O patrimônio líquido é o que resta depois de subtrair todos os passivos do total de ativos. Compreende:
- Capital social — o que os acionistas originalmente investiram
- Lucros acumulados — lucros gerados e não distribuídos como dividendos
- Outros resultados abrangentes — ganhos/perdas não realizados em determinados investimentos e moeda estrangeira
Para empresas que foram lucrativas e disciplinadas com dividendos, os lucros acumulados crescem constantemente ao longo dos anos, construindo uma grande base de patrimônio. Para empresas que realizaram grandes baixas contábeis, reestruturações ou prejuízos, os lucros acumulados podem ser negativos — o que significa que a empresa consumiu mais capital do que gerou.
Os principais indicadores
Os indicadores extraem relações dos dados do balanço patrimonial que os números brutos obscurecem:
Preço/Valor Patrimonial (P/VP): Capitalização de mercado dividida pelo patrimônio líquido. Um P/VP de 1,0x significa que o mercado avalia a empresa exatamente pelo que a contabilidade diz que seu patrimônio vale. Um P/VP abaixo de 1,0x significa que o mercado acredita que os ativos estão superavaliados ou que os retornos futuros não cobrirão o custo do capital. As small caps brasileiras em 2026 negociam com P/VPs muito baixos — a Gerdau, por exemplo, historicamente negociou entre 0,8x e 2,5x P/VP.
Dívida/Patrimônio Líquido (D/PL): Dívida total dividida pelo patrimônio líquido. D/PL altos indicam alavancagem financeira — a empresa tomou empréstimos significativos em relação à sua base de patrimônio. Isso amplifica os retornos quando o negócio vai bem e amplifica as perdas quando as condições se deterioram.
Retorno sobre o Patrimônio Líquido (ROE): Lucro líquido dividido pelo patrimônio líquido médio. Isso mede a eficiência com que a gestão utiliza o capital de patrimônio que possui. Um banco gerando ROE de 15% é considerado bom pelos padrões bancários brasileiros; uma empresa industrial gerando ROE de 8% pode ser aceitável dependendo da intensidade de capital do negócio.
Índice de Liquidez Corrente: Ativos circulantes divididos pelos passivos circulantes. Um índice acima de 1,0x significa que a empresa tem mais ativos líquidos do que obrigações de curto prazo — pode cumprir seus compromissos de curto prazo. Um índice abaixo de 1,0x levanta preocupações de liquidez.
| Indicador | Fórmula | O que mostra | Gerdau (aprox.) | Vale (aprox.) |
|---|---|---|---|---|
| P/VP | Cap. mercado ÷ PL | Valuation vs. valor contábil | ~1,2x | ~1,5x |
| D/PL | Dívida total ÷ PL | Alavancagem | Maior | Menor |
| ROE | Lucro líquido ÷ PL médio | Retorno sobre capital | ~15–18% | ~20%+ |
| Liquidez corrente | Ativo circ. ÷ Passivo circ. | Liquidez | >1,0x | >1,0x |
Sinais de alerta para identificar
Contas a receber crescendo mais rápido que a receita: Se os recebíveis sobem mais rápido que as vendas, pode indicar que os clientes estão pagando mais devagar (sinal de estresse financeiro dos clientes) ou que a receita está sendo reconhecida antes de ser verdadeiramente auferida.
Ágio (goodwill) que nunca é amortizado: Quando uma empresa adquire outra por mais do que seu valor contábil, o excesso é registrado como ágio. Se o ágio nunca é reduzido ao valor recuperável mesmo com o negócio adquirido abaixo do desempenho, o balanço pode estar superavaliando os ativos.
Estoques subindo em ambiente de demanda mais fraca: Para fabricantes (como a Romi), o acúmulo de estoque em períodos de demanda fraca pode indicar que a produção ainda não se ajustou a uma carteira de pedidos menor.
Patrimônio líquido negativo: Significa que os passivos superam os ativos. Para a maioria das empresas, o patrimônio líquido negativo é um sinal grave de dificuldade financeira.
Provisões para contingências opacas: Contingências judiciais e ambientais grandes sem divulgação clara de sua base dificultam a avaliação do passivo real.
Onde encontrar as demonstrações financeiras brasileiras
Todas as empresas brasileiras de capital aberto devem protocolizar suas demonstrações financeiras na CVM (Comissão de Valores Mobiliários) por meio do sistema Empresas.NET. As demonstrações também estão disponíveis nas páginas de relações com investidores (RI) das empresas e no site da B3 na seção de arquivos de cada companhia.
Para Vale e Gerdau, versões em inglês dos comunicados de resultados trimestrais estão disponíveis em suas páginas de RI, dada a relevante base de investidores internacionais. Para empresas menores como a Romi, os arquivos em português no sistema da CVM são a fonte primária.
A capacidade de localizar, abrir e ler esses documentos é a diferença entre possuir uma empresa e possuir um ticker.
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