A temporada de resultados do primeiro trimestre de 2026 (1T26) está em andamento. A Romi (ROMI3) abriu o calendário em 14 de abril, e nas semanas seguintes a atenção se volta para os três maiores bancos privados do país: Itaú Unibanco (ITUB4), Bradesco (BBDC4) e Santander Brasil (SANB11). As expectativas são de que ambos Itaú e Bradesco divulguem seus balanços por volta do dia 5 de maio, com Santander na mesma janela.
Para quem acompanha o setor financeiro, esses números chegam num contexto particularmente complexo: Selic em queda, inadimplência recorde e um mercado de crédito que cresce seletivamente. Entender o que cada banco prioriza — e onde os riscos ainda existem — é o que separa uma leitura superficial de uma análise fundamentada.
O Cenário Macro Que Enquadra os Resultados
Antes de entrar nos bancos individualmente, é preciso entender o ambiente em que operaram no primeiro trimestre.
Selic a 14,75%. O Copom cortou a taxa básica de juros para 14,75% em 18 de março de 2026. O ciclo de afrouxamento começou depois de um período prolongado com juros altos, e o mercado já precifica a Selic em torno de 12,25% ao final de 2026, conforme o Boletim Focus. Para os bancos, juros em queda têm efeito duplo: estimulam a demanda por crédito (positivo para volume) e pressionam as margens de intermediação financeira (negativo para NIM no curto prazo).
Inadimplência em recorde. Segundo a Serasa Experian, 81,7 milhões de brasileiros estavam negativados no início de 2026, com R$ 539 bilhões em dívidas em atraso. O crédito não-imobiliário já representava 31,22% da renda das famílias — um nível historicamente elevado que sinaliza stress para as carteiras de crédito ao consumidor. Esse número é o pano de fundo para interpretar as despesas com provisão para devedores duvidosos (PDD) de cada banco.
Ibovespa próximo de 200 mil, com bancos na liderança. O setor financeiro foi um dos protagonistas do rali do Ibovespa em 2026, beneficiado pelo fluxo estrangeiro de aproximadamente R$ 65 bilhões no ano até abril e pelo otimismo em torno do ciclo de corte de juros. Os bancos entraram na temporada de resultados do 1T26 com valuation já elevado em relação à média recente — o que aumenta o nível de exigência do mercado sobre os números.
Itaú Unibanco (ITUB4): O Padrão de Eficiência do Setor
O Itaú fechou 2025 com lucro líquido recorrente de R$ 46,8 bilhões, crescimento de 13,1% sobre 2024, e ROE de 23,4% — o maior entre os grandes bancos privados brasileiros e referência para o setor. No 4T25, o NII com clientes atingiu R$ 30,9 bilhões, crescimento de 8,6% na comparação anual.
Para o 1T26, o guidance divulgado pelo banco projeta crescimento de lucro em torno de 7 a 9% para o ano completo, com projeção de resultado próximo de R$ 51 bilhões. O NII de mercado (tesouraria) deve se beneficiar da queda da Selic, enquanto o NII com clientes depende do ritmo de crescimento da carteira.
O que observar no resultado do 1T26:
- Crescimento da carteira: o Itaú tem acelerado o crédito imobiliário, cartão de crédito e consignado privado. Crescimento acima de 7% na carteira total seria consistente com o guidance anual.
- NIM (margem de intermediação): com a Selic caindo, a margem líquida de juros tende a se comprimir ligeiramente. O mercado acompanhará se essa compressão foi antecipada nos modelos do banco ou veio pior que o esperado.
- PDD e inadimplência: o Itaú tem historicamente mantido índices de inadimplência abaixo dos pares, graças ao mix de crédito com garantia. Qualquer elevação no índice de NPL (non-performing loans) seria um sinal de alerta.
- Índice de Basileia: o banco encerrou 2025 com Basileia de 17,4%, ampla folga frente ao mínimo regulatório. Isso sustenta tanto a capacidade de crescer o crédito quanto a política de recompra de ações.
- Dividendos e JCP: em fevereiro de 2026, o Conselho de Administração aprovou R$ 3,85 bilhões em Juros sobre Capital Próprio. O 1T26 trará nova rodada de proventos — o yield histórico de ITUB4 é relevante para investidores de renda.
O Itaú entra no 1T26 como o banco mais bem posicionado entre os três analisados. O risco principal é uma surpresa negativa nas despesas com PDD, que poderia comprimir o ROE abaixo das expectativas.
Bradesco (BBDC4): O Turnaround em Andamento
O Bradesco passou pelos últimos dois anos no modo de reconstrução. O ponto de partida foi 2023, quando o banco reportou ROE de 7% — um nível muito abaixo do custo de capital — e anunciou um plano de reestruturação amplo sob o CEO Marcelo Noronha.
O avanço foi mais rápido que o esperado pelo mercado. No 4T25, o ROE atingiu 15,2%, superando o custo de capital pela primeira vez desde o início do turnaround. O banco encerrou 2025 com lucro líquido acima de R$ 24 bilhões e ROE consolidado de cerca de 14,9%.
Para 2026, o guidance aponta para lucro próximo de R$ 27,5 bilhões, crescimento de 11,4% em relação a 2025, com ROE projetado de 15,3%.
O que observar no 1T26:
- Trajetória do ROE: a questão central do mercado é se o Bradesco consegue sustentar e ampliar o ROE trimestre a trimestre. O 1T26 é o primeiro teste do ano depois da virada do 4T25. Uma queda sequencial no ROE geraria dúvidas sobre a durabilidade do turnaround.
- Mix de crédito e PDD: o Bradesco estava exposto a carteiras de maior risco (crédito pessoal não-consignado, MPME) que foram a principal fonte de deterioração no ciclo anterior. Ver como a inadimplência dessas carteiras evolui no 1T26 é fundamental.
- Receitas de tarifas e serviços: uma das alavancas do turnaround é a diversificação de receitas para além do NII. Tarifas bancárias, seguros (via Bradesco Seguros) e gestão de recursos são fontes relevantes de receita não-sensível a juros.
- Índice de eficiência: o banco comunicou que está investindo em automação e simplificação de processos. Um índice de eficiência abaixo de 45% seria um sinal positivo de que os custos estão sendo controlados.
- Private banking vs. varejo: o Bradesco tem um dos maiores canais de varejo do Brasil, mas também opera no segmento de alta renda. A composição do cliente afeta diretamente o mix de produtos e o perfil de inadimplência.
O Bradesco é o banco com maior potencial de surpresa positiva no 1T26 — mas também o que carrega mais incerteza. Um resultado que confirme a continuidade do turnaround poderia impulsionar BBDC4; uma surpresa negativa em PDD ou ROE pode frustrar quem apostou na recuperação.
Santander Brasil (SANB11): Reorganização com Foco em Rentabilidade
O Santander Brasil está em uma fase diferente dos outros dois: não é um turnaround como o Bradesco, nem tem a solidez consolidada do Itaú. É um processo de reorganização interna com foco claro em rentabilidade — mesmo que isso implique crescer menos que os concorrentes.
No 4T25, o banco reportou lucro de R$ 4,1 bilhões e ROE de 17,6% — o melhor resultado em quatro anos. Para 2025 como um todo, o lucro acumulado atingiu R$ 15,6 bilhões, crescimento de 12,6% sobre 2024. O banco já anunciou JCP de R$ 2 bilhões para 2026.
A estratégia do CEO é explícita: menos crédito para baixa renda e agronegócio, mais foco em alta renda e crédito com garantia. Entre 2024 e 2025, o banco fechou 585 agências e cortou 2.200 postos de trabalho em um movimento de redução de custos e simplificação operacional. A meta de ROE acima de 20% permanece no horizonte.
Porém, o BTG Pactual projetou resultados mais fracos para o Santander no 1T26, o que coloca o banco numa posição de maior incerteza relativa.
O que observar no 1T26:
- Qualidade dos ativos: o talão de Aquiles recente do Santander Brasil tem sido a qualidade da carteira, especialmente em crédito pessoa física. O 4T25 acendeu alerta de inadimplência mesmo com lucro elevado. O 1T26 dirá se essa tendência se agrava ou se estabiliza.
- Crescimento seletivo do crédito: o banco projeta crescimento da carteira entre 5% e 6% em 2026 — abaixo dos pares. Crescimento abaixo desse patamar no 1T26 não seria necessariamente negativo se vier acompanhado de melhora nas margens.
- Margem de clientes: o Santander comunicou que as margens com clientes devem avançar entre 3% e 4% em 2026. A comparação com o ritmo observado no 1T26 dirá se o banco está no caminho.
- Receitas de serviços: parte da tese de recuperação do Santander passa pela expansão de receitas com serviços (seguros, câmbio, gestão de patrimônio), reduzindo dependência do spread bancário puro.
- Progresso rumo ao ROE de 20%: o Santander é o único dos três que colocou publicamente uma meta de ROE acima de 20% como objetivo de médio prazo. O 1T26 é um ponto de referência para avaliar a distância percorrida.
O Que Olhar em Cada Linha do Resultado
Independentemente do banco, os resultados trimestrais do setor financeiro seguem uma estrutura padrão. Saber onde olhar primeiro economiza tempo e evita leituras superficiais:
| Linha | O que revela |
|---|---|
| NII (Margem Financeira Bruta) | Receita de intermediação — sensível a Selic e volume de crédito |
| NIM (Margem Líquida) | Eficiência na captação e aplicação de recursos |
| PDD (Provisão para Devedores Duvidosos) | Custo de risco da carteira — sobe com inadimplência |
| NPL (Non-Performing Loans) | % da carteira em atraso — indicador antecedente |
| Receitas de Tarifas | Diversificação; independe de juros |
| Índice de Eficiência | Custos sobre receitas — menor é melhor |
| ROE | Rentabilidade sobre patrimônio — referência de criação de valor |
| Índice de Basileia | Solidez de capital — capacidade de crescer e distribuir proventos |
Em ciclos de queda da Selic como o atual, a tendência é de compressão do NIM no curto prazo, compensada pelo crescimento em volume. O mercado punirá bancos que não demonstrarem crescimento de carteira, mesmo que as margens se comprimam.
Perspectivas de Dividendos e Recompra de Ações
Com bancos saudáveis e capital bem posicionado, o tema de retorno ao acionista ganha relevância especial no 1T26.
O Itaú tem a política de distribuição mais robusta: historicamente distribui próximo de 50% do lucro líquido entre dividendos e JCP, com yield consistente. A recompra de ações foi intensificada em 2025, sustentada pelo Basileia confortável de 17,4%.
O Bradesco, durante o período de reestruturação, foi mais conservador na distribuição. À medida que o ROE se consolida acima do custo de capital, o espaço para aumentar o payout cresce. Isso pode ser um gatilho de valorização para BBDC4 em 2026.
O Santander Brasil já anunciou JCP de R$ 2 bilhões para 2026 — um sinal de confiança na geração de caixa. O yield de SANB11 tende a ser mais variável, refletindo o estágio de reorganização.
Calendário e Como Acompanhar
As divulgações devem ocorrer na primeira quinzena de maio. Itaú e Bradesco têm histórico de anunciar simultaneamente, frequentemente no mesmo dia, com Santander na mesma janela.
O ritual de acompanhamento inclui:
- Press release: divulgado antes da abertura dos mercados ou após o fechamento, com os números principais
- Apresentação de resultados: documento mais detalhado com abertura das linhas e comentários do management
- Earnings call (teleconferência): geralmente no mesmo dia ou no seguinte — aqui o mercado busca sinais de guidance e tom dos executivos
Para investidores de longo prazo, um único trimestre raramente é decisivo. O que importa é a consistência da trajetória: crescimento de carteira dentro do guidance, PDD estável ou em queda, ROE sustentável e capital adequado.
Varejo Bancário, Private Banking e o Mix de Receita
Uma distinção importante que os resultados do 1T26 revelarão com mais clareza: a diferença de rentabilidade entre clientes de varejo e clientes de alta renda.
O segmento private banking — clientes com patrimônio acima de R$ 1 milhão — é mais rentável por unidade de capital empregado: menor inadimplência, maior ticket médio em produtos de investimento e menor dependência de crédito rotativo. O Itaú (via Itaú Private Bank) e o Bradesco (via Bradesco Prime e Private) têm operações maduras nesse segmento. O Santander tem acelerado seu reposicionamento nessa direção.
À medida que o ciclo de juros se normaliza e o spread bancário se comprime, os bancos mais dependentes de spread puro no varejo de baixa renda sofrerão mais pressão de margem. Os que tiverem migrado para um mix mais equilibrado entre NII e tarifas/serviços sairão melhor.
Royal Binary é uma plataforma de trading gerenciado fundada por Sidnei Oliveira, ex-sargento da Aeronáutica com mais de seis anos de experiência em mercados. Este conteúdo é informativo e não constitui recomendação de investimento. Para quem busca alocação complementar às ações bancárias — com uma abordagem gerenciada por profissionais — conheça como operamos.
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