No mesmo dia em que se completava um ano do Liberation Day original, 2 de abril de 2026, o presidente Donald Trump assinou uma nova proclamação presidencial expandindo os poderes da Section 232 do Trade Expansion Act de 1962. A medida entrou em vigor no dia 6 de abril e traz três mudanças que afetam diretamente o Brasil: a extensão das tarifas de aço e alumínio ao cobre, a inclusão de farmacêuticos no regime da Section 232, e — a mudança mais técnica mas de maior impacto financeiro — a base de cálculo das tarifas, que passa do valor do metal contido no produto para o valor aduaneiro integral do artigo importado.
Essa última mudança, aparentemente burocrática, tem efeito multiplicador sobre o custo efetivo das tarifas. E ela acontece em um momento em que a Section 122, o outro instrumento tarifário de Trump, enfrenta contestação judicial com decisão pendente no Court of International Trade.
O que mudou na proclamação de 2 de abril
A Section 232 existia antes de 2026. Trump já a usava para aço e alumínio desde 2018, com alíquotas de 25% e 10%, respectivamente. O que a proclamação de 2 de abril alterou foi a amplitude e a mecânica de cálculo.
Base de cálculo: Anteriormente, os chamados "artigos derivados" — produtos manufaturados que contêm aço, alumínio ou cobre — tinham a tarifa calculada apenas sobre a parcela do valor aduaneiro correspondente ao metal presente no produto. Um motor elétrico, por exemplo, pagava tarifa apenas sobre o valor do cobre embutido nele, não sobre o motor completo. A partir de 6 de abril, a tarifa incide sobre o valor total de alfândega do produto importado. Para produtos com alto valor agregado e pouco metal relativo, esse é um aumento de custo substancial.
Cobre entra no regime: O cobre era tratado separadamente e com menor urgência. A proclamação de 2 de abril o equipara formalmente ao aço e ao alumínio dentro da Section 232, com alíquota máxima de 50%.
Farmacêuticos com tarifa de até 100%: Medicamentos patenteados sem acordo com o governo passam a enfrentar alíquota máxima de 100%. Esse ponto já tratei em detalhe no artigo sobre a tarifa de 100% sobre medicamentos, mas vale contextualizar: a inclusão dos farmacêuticos na Section 232 é estratégica. A base legal da Section 232 (segurança nacional) sobreviveu melhor ao escrutínio judicial do que o IEEPA, que foi derrubado pela Suprema Corte em fevereiro de 2026.
De minimis de 15%: A proclamação introduziu uma isenção de de minimis de 15% para artigos derivados com conteúdo de metal menor que esse percentual do valor total do produto. Na prática, isso protege categorias com pouquíssimo metal relativo, mas a maioria dos produtos manufaturados tradicionais fica fora dessa isenção.
O mapa de tarifas após 6 de abril
| Material | Alíquota máxima | Base de cálculo (pós-6/abr) |
|---|---|---|
| Aço | 50% | Valor aduaneiro integral do artigo |
| Alumínio | 50% | Valor aduaneiro integral do artigo |
| Cobre | 50% | Valor aduaneiro integral do artigo |
| Farmacêuticos (sem acordo) | 100% | Valor aduaneiro integral |
| Farmacêuticos (com acordo MFN) | 0% até jan/2029 | — |
| Artigos com menos de 15% de metal | Isentos | — |
A alíquota de 50% para metais não é universal — ela representa o teto. As taxas reais dependem do país de origem, do tipo de produto e de eventuais acordos bilaterais. Mas o regime pós-6 de abril eleva o piso de custo de forma ampla.
O front judicial: Section 122 e os desafios no Court of International Trade
Enquanto a Section 232 avança, a outra perna do sistema tarifário de Trump — a Section 122, que impõe tarifa global de 10% — enfrenta contestação legal direta.
Em 10 de abril de 2026, o U.S. Court of International Trade realizou audiência sobre os desafios à Section 122. A questão central é se um déficit comercial crônico — estrutural ao papel do dólar como moeda de reserva global — constitui o "sério desequilíbrio no balanço de pagamentos" que a lei de 1974 foi criada para remediar. A Section 122 tem prazo de 150 dias a partir da implementação em 24 de fevereiro, o que coloca a expiração em 24 de julho de 2026.
Se o tribunal suspender a Section 122 antes disso, ou se ela simplesmente expirar sem renovação, o regime tarifário americano fica reduzido à Section 232 (para metais e farmacêuticos) e às investigações de Section 301 que a administração tem preparado para países específicos. Esse é o cenário base para o segundo semestre de 2026.
O impacto no Brasil: Gerdau, CSN e Vale na linha de frente
O Brasil é um dos maiores exportadores de aço e alumínio para os Estados Unidos. Essa posição, que era fonte de receita expressiva, agora enfrenta um ambiente mais restritivo.
Aço brasileiro: O Brasil está entre os cinco maiores fornecedores de aço para o mercado americano. As principais empresas expostas são Gerdau e CSN. A Gerdau, em particular, tem operações industriais nos próprios EUA (via Gerdau Ameristeel), o que serve como hedge parcial contra tarifas de importação — aço produzido localmente não paga tarifa. Mas o volume exportado diretamente do Brasil sofre o impacto integral da alíquota de 25% base mais eventuais adicionais.
Alumínio: O Brasil produz alumínio primário em quantidade relevante. Com a base de cálculo sobre o valor integral dos artigos derivados, exportadores de produtos manufaturados que contenham alumínio — não apenas o metal puro — passam a enfrentar custo tarifário mais alto nos EUA.
Vale e minério de ferro: Aqui a lógica é indireta. O minério de ferro não é diretamente atingido pelas tarifas da Section 232, que foca em aço e alumínio. Mas se as tarifas reduzirem a produção siderúrgica americana (pela elevação do custo de insumos importados ou pela queda de demanda), a cadeia se contrai, e a demanda por minério de ferro de fornecedores como a Vale pode ser afetada marginalmente. O impacto mais relevante para a Vale continua sendo a demanda chinesa, que discuto abaixo.
| Empresa | Exposição direta | Mecanismo |
|---|---|---|
| Gerdau | Média (hedge parcial via operações nos EUA) | Exportações de aço do Brasil ao mercado americano |
| CSN | Alta | Volume significativo de aço exportado para os EUA |
| Vale | Indireta | Efeito em cadeia na demanda siderúrgica global |
China, Brasil e o redirecionamento de US$ 171 bilhões
O quadro não se resume ao impacto negativo das tarifas americanas. Existe um lado positivo para o Brasil que emerge do mesmo movimento.
O comércio bilateral Brasil-China atingiu US$ 171 bilhões em 2025, um recorde histórico. Parte desse crescimento é resultado direto do redirecionamento de cadeias de suprimento que as tarifas americanas provocaram: a China reduziu compras de aço e commodities de origem americana e ampliou contratos com fornecedores brasileiros. Minério de ferro e soja foram os principais itens dessa migração.
A lógica aqui é de substituição, não de contração. Quando os EUA sobretaxam produtos específicos, os fluxos se redirecionam, e países com tarifas menores ou relações bilaterais mais favoráveis ganham participação. O Brasil, com a China como maior parceiro comercial e com capacidade de fornecimento em aço, alumínio, soja e minério, está bem posicionado para capturar parte desse desvio.
Isso não elimina o impacto das tarifas americanas sobre exportadores brasileiros que dependem do mercado dos EUA. Mas cria um equilíbrio que os dados de exportação total do Brasil — US$ 348,3 bilhões em 2025, recorde histórico — já começaram a refletir.
Cadeias de suprimento globais sob pressão
A mudança na base de cálculo da Section 232 — do conteúdo de metal para o valor total do produto — tem efeito amplificado sobre cadeias industriais complexas. Um produto manufaturado de alto valor agregado que contenha aço estrutural passa a ter o custo tarifário calculado sobre seu preço final, não sobre o custo do insumo metálico.
Isso cria dois efeitos para importadores americanos:
Primeiro: Produtos com alta relação valor/metal — máquinas industriais, equipamentos, veículos — se tornam significativamente mais caros de importar do que antes. A tarifa efetiva, como percentual do custo do produto acabado, sobe. Isso pressiona os importadores americanos a buscarem fornecedores domésticos ou a repassarem o custo.
Segundo: A isenção de de minimis de 15% cria um incentivo para que fabricantes reformulem seus produtos para ficarem abaixo do limiar de conteúdo metálico, ou para que relocalizar etapas produtivas que utilizam mais metal para fora dos EUA. Isso é desindustrialização ao contrário — não a produção retorna aos EUA, mas partes dela migram para países com menor exposição tarifária.
Para países como o Brasil, que têm capacidade industrial crescente, isso pode abrir oportunidades em nichos específicos de manufatura que passam a ser mais caros de produzir nos EUA ou de importar de destinos com alíquotas mais altas.
O contexto legal: por que a Section 232 sobrevive enquanto o IEEPA caiu
Quando a Suprema Corte derrubou as tarifas IEEPA do Liberation Day em fevereiro de 2026 — por 6 votos a 3, no caso Learning Resources, Inc. v. Trump — a administração Trump precisou de uma base legal mais sólida. A Section 232, com sua âncora em segurança nacional, oferece essa estabilidade.
O precedente judicial da Section 232 é diferente. Tribunais americanos historicamente aceitaram o argumento de segurança nacional como base legítima para restrições comerciais, inclusive a Corte de Comércio Internacional, que em casos anteriores reconheceu a ampla discricionariedade presidencial nessa área. A Suprema Corte não chegou a se pronunciar especificamente sobre a Section 232 pós-Liberation Day.
Isso tem uma consequência prática importante para o investidor: as tarifas sobre aço, alumínio, cobre e farmacêuticos impostas via Section 232 têm durabilidade judicial maior do que as tarifas IEEPA derrubadas em fevereiro. Não são transitórias da mesma forma. Para empresas que precisam planejar cadeias de suprimento, isso muda o cálculo.
O que isso significa para o portfólio
Quatro dinâmicas emergem desse contexto para quem investe:
Siderúrgicas brasileiras com exposição aos EUA: CSN e Gerdau estão na linha direta do impacto. A pressão tarifária sobre exportações para os EUA não é nova — vem desde 2018 — mas a elevação do teto para 50% e a mudança na base de cálculo para artigos derivados aumentam o custo efetivo. A Gerdau tem hedge parcial via operações americanas; a CSN, menos. Para quem tem posição nessas ações, monitorar o volume de exportação para os EUA e a capacidade de redirecionamento para outros mercados é fundamental.
Vale e a cadeia de minério: O impacto é indireto, mas real. Se a produção siderúrgica global se contrair por causa das tarifas, a demanda por minério de ferro cai na margem. O cenário mais relevante para a Vale continua sendo a China — e o comércio bilateral Brasil-China em US$ 171 bilhões sugere que a demanda chinesa por insumos brasileiros está crescendo, não caindo.
Empresas com exposição ao cobre: O cobre entrar formalmente na Section 232 é uma novidade com implicações para mineradoras e fabricantes de equipamentos elétricos. No Brasil, a exposição ao cobre existe em empresas diversificadas e via ETFs de commodities. A eletrificação global — veículos elétricos, energia solar, redes de transmissão — continuará demandando cobre em volumes crescentes, e fornecedores brasileiros e latino-americanos podem se beneficiar de desvio de demanda de fornecedores americanos mais caros.
Volatilidade como janela: O período entre a proclamação de 2 de abril e a decisão do Court of International Trade sobre a Section 122, prevista para antes de 24 de julho, cria incerteza comercial concentrada. Cada movimento judicial, cada anúncio de acordo bilateral, cada dado de balança comercial pode mover ações de siderurgia, commodities e farmacêuticas em ambas as direções. Para traders, esse é o tipo de ambiente que gera movimentos operáveis — desde que a gestão de risco esteja calibrada.
Na Royal Binary, o time de traders acompanha eventos como essa expansão da Section 232 como parte da operação diária. Se você quer entender como profissionais navegam volatilidade geopolítica com disciplina, conheça a plataforma.


